Atenção para o objeto
Procurar analisar o objeto
(a coisa, a pessoa, o lugar, etc.) a partir de todos os enfoques
que puder. Mentalmente, "ande" em volta do objeto, visualize-o
por cima, por baixo, etc.
Verifique todas as impressões que o objeto
descrito causa em você:
- as impressões de todos os sentidos
- as impressões morais (causa prazer,
repugnância, alegria...)
- as lembranças.
Atenção para os objetivos
Qual o propósito de uma descrição?
Como exercício, ela pode
ser feita isoladamente, o que costuma acontecer nas aulas de
1.º e 2.º graus. Mas em geral uma descrição destina-se a incrementar
um texto narrativo ou dissertativo. Para que o leitor de um
romance, por exemplo, aproxime-se de um de seus personagens,
o autor utiliza a descrição para apresentá-lo.
Perceba que, dependendo
de sua necessidade, você deverá optar por uma descrição objetiva
(pela qual são privilegiados os elementos concretos) ou uma
descrição subjetiva (pela qual são privilegiados elementos
pessoais, particulares, etc.).
- Elementos da descrição objetiva
de uma cadeira:
feita de madeira negra e cheirosa; larga; com
ou sem encosto; resistente; antiga; estofada; adornada;
etc.
- Elementos da descrição subjetiva
de uma cadeira
manchada pelo descuido das crianças; de beleza
enigmática; firme amparo para meu avô; etc.
Leia as seguintes descrições de personagens.
1
As chamadas baianas não
usavam de vestidos; traziam somente umas poucas saias presas
à cintura, e que chegavam pouco abaixo do meio da perna, todas
elas ornadas de magníficas rendas; da cintura para cima apenas
traziam uma finíssima camisa, cuja gola e manga eram também
ornadas de renda; ao pescoço punham um cordão de ouro, um colar
de corais, os mais pobres eram de miçangas; ornavam a cabeça
com uma espécie de turbante a que davam o nome de trunfas,
formado por um grande laço branco muito teso e engomado; calçavam
umas chinelas de salto alto e tão pequenas que apenas continham
os dedos dos pés, ficando de fora todo o calcanhar; e, além
de tudo isto, envolviam-se graciosamente em uma capa de pano
preto, deixando de fora os braços ornados de argolas de metal
simulando pulseiras.
(Memórias de um sargento
de milícias,
Manuel Antonio de Almeida)
2
Nas ocasiões de aparato
é que se podia tomar o pulso ao homem. Não só as condecorações
gritavam-lhe no peito como uma couraça de grilos: Ateneu!
Ateneu! Aristarco todo era um anúncio; os gestos, calmos,
soberanos, eram de um rei — o autocrata excelso dos silabários;
a pausa hierática do andar deixava sentir o esforço, a cada
passo, que ele fazia para levar adiante, de empurrão, o progresso
do ensino público; o olhar fulgurante, sob a crispação áspera
dos supercílios de monstro japonês, penetrando de luz as almas
circunstantes — era a educação da inteligência; o queixo,
severamente escanhoado de orelha a orelha, lembrava a lisura
das consciências limpas — era a educação moral. A própria
estatura, na imobilidade do gesto, na mudez do vulto, a simples
estatura dizia dele: aqui está um grande homem... não vêem os
côvados de Golias?!... Retorça-se sobre tudo isto um par de
bigodes, volutas maciças de fios alvos, torneadas a capricho,
cobrindo os lábios, fecho de prata sobre o silêncio de ouro,
que tão belamente impunha como o retraimento fecundo do seu
espírito — teremos esboçado moralmente, materialmente,
o perfil do ilustre diretor.
(O Ateneu, Raul Pompéia)
3
Ele é um homem ainda moço,
de 30 anos presumíveis, magro, de estatura média. Seu olhar
é morto, contemplativo. Suas feições transmitem bondade, tolerância
e há em seu rosto um "quê" de infantilidade. Seus gestos são
lentos, preguiçosos, bem como sua maneira de falar. Tem barba
de dois ou três dias e traja-se decentemente, embora sua roupa
seja mal talhada e esteja amarrotada e suja de poeira. Rosa
parece pouco ter de comum com ele. É uma bela mulher, embora
seus traços sejam um tanto grosseiros, tal como suas maneiras.
Ao contrário do marido, tem "sangue quente". É agressiva em
seu "sexy", revelando, logo à primeira vista, uma insatisfação
sexual e uma ânsia recalcada de romper com o ambiente em que
se sente sufocar. Veste-se como uma provinciana que vem à cidade,
mas também como uma mulher que não deseja ocultar os encantos
que possui.
(O Pagador de Promessas,
Dias Gomes)
1. Compare os textos e responda:
a) Quais as diferenças entre as descrições
de cada autor?
b) Por essas diferenças, qual você acha
que é a intenção de cada autor?
c) Qual dos três exemplos
de descrição lhe pareceu mais expressivo? Por quê? (Atenção:
os três são grandes autores da literatura brasileira. A preferência
pode ser pessoal — mas deve ser justificada. Não há uma
resposta "certa" para a questão.)
1. Faça
uma autodescrição.
2.
Faça a descrição de um objeto comum, sem nomeá-lo, de maneira
que o leitor consiga identificá-lo apenas por suas características.
Sua descrição deve ser o mais objetiva e concisa possível. Procure
seguir os critérios sugeridos abaixo:
a) O que a sua visão assimila desse
objeto?
b) O que o sua audição recolhe desse
objeto?
c) O que o seu tato sente desse
objeto?
d) O que o seu olfato capta desse
objeto?
e) O que o seu paladar percebe desse
objeto?
3. Observe
a descrição que você acabou de redigir e responda:
a) Que adjetivos você utilizou
para cada um dos cinco sentidos? Monte um quadro simplificado.
b) Dentre os adjetivos
que você usou, relacionados a um determinado sentido, poderiam
alguns ter sido usados em relação a algum outro sentido? Quais?
c) Tente reescrever alguns
trechos de sua descrição utilizando os adjetivos trocados. Experimente,
por exemplo, utilizar um adjetivo ligado ao paladar quando estiver
se referindo à visão ou à audição do objeto etc.
4.
Faça duas breves descrições para cada elemento apontado abaixo:
a primeira, objetiva; a segunda, subjetiva.
a) Um clipe de prender papéis.
b) A bandeira de um país.
c) Uma bola de futebol.
d) A estradinha de terra que leva ao sítio.
e) Uma casa humilde localizada em um bairro
pobre.
f) Uma pessoa que se está conhecendo
no mesmo instante.