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3. Como fazer
uma dissertação
A coerência é
um aspecto de grande importância para a eficiência de uma
dissertação. Um texto deve ser, todo ele, compatível com o
objetivo do redator, e todas as suas partes devem ser harmônicas
entre si.
Já está comprovado que
a capacidade discursiva de quem se expressa é potencialmente
elevada quando seus objetivos estão bem claros. Por
isso, não é produtivo propor-se apenas "fazer uma redação"
como se fosse uma atividade tão trivial quanto "fazer uma
faxina". Além disso, redigir envolve um número praticamente
infindável de opções, o que não acontece, por exemplo, quando
desejamos resolver uma simples equação matemática. Como saber
quais opções tomar? Se o objetivo da faxina é tornar um cômodo
limpo, e o objetivo da resolução da equação é obter uma resposta
precisa, o objetivo da redação é chegar a um texto que será
tão repleto de escolhas pessoais (idéias, palavras, estruturas
frasais, exemplos) que, até partindo de um mesmo assunto geral,
milhares de pessoas podem chegar a um bom resultado apresentando
trabalhos nitidamente diferentes. O grande risco desse leque
de opções está na possibilidade de o redator confundir-se
e, sem estabelecer seus objetivos, realizar apenas um amontoado
de informações sem a coerência necessária. Nos casos mais
graves, poderá ser impossível a um leitor razoável compreender
minimamente os pensamentos de quem escreveu.
Assim, é preciso organizar
o texto a partir de objetivos bem delineados. Evidentemente
não se deve considerar como objetivo "tirar nota" ou "entregar
um trabalho". O objetivo é aquilo que se quer causar no leitor.
Vejamos alguns exemplos mais comuns:
- Se quero ensinar alguém,
escrevo um texto didático. Meu texto poderá ser
um pouco repetitivo, para facilitar o aprendizado. Classificarei
os objetos e mostrarei o nome atribuído a cada espécie.
Exemplificarei. Meu objetivo é passar informações básicas:
faço parecer que não é necessário provar essas
informações, e o leitor deve assimilá-las como integrantes
de um universo já consagrado do conhecimento.
- Se quero informar alguém
sobre certo fato recente em um periódico como o jornal,
escrevo um texto jornalístico. Dou destaque para
a informação mais atualizada, colocando-a no início —
para os leitores que precisarem de uma contextualização,
eu a colocarei no final do texto. Usarei frases curtas
e palavras simples. Farei o leitor pensar que sou neutro
em relação ao fato: direi "aconteceu tal coisa", e não
"vi tal coisa". Em geral predomina a narrativa nesse tipo
de texto, mas a exposição de determinadas idéias (a que
os fatos se referem) é que norteia a construção do texto.
- Se quero determinar regras
a serem seguidas, escrevo um texto jurídico. Julgando
ou legislando, tenho o objetivo de fazer com que certas
pessoas ajam de alguma maneira. Usarei palavras cujo significado
seja bastante preciso — em particular as formas
já consagradas no meio — e procurarei considerar
todos os exemplos possíveis em relação ao assunto. Se
faço uma lei, contextualizo seu universo de aplicação
e faço referência a todas as exceções cabíveis; além disso,
afirmo que não constitui exceção aquilo que não
foi referido. Nesse tipo de texto, rigor e objetividade
devem ser implacáveis.
- Se quero orientar alguém
a proceder de acordo com certas técnicas, escrevo
um texto técnico. Divido meu texto em fases ou
passos, de acordo com o procedimento descrito, e, para
não poluir a singeleza da receita a ser seguida, acrescento
minhas explicações em notas e observações à parte.
- Se quero comunicar minhas
descobertas à comunidade científica, escrevo um
texto científico. Uso apenas termos objetivos e
prefiro vocábulos integrantes da nomenclatura de minha
ciência, repetindo-os exaustivamente, se necessário, mesmo
que não seja elegante fazer isso — minha preocupação
não é ser elegante, mas sim informar os resultados de
minha pesquisa científica. Para alinhar conclusões a partir
de meus dados, preciso usar argumentos e refutações, enfrentando
as escolas contrárias à minha.
- Se quero expressar reflexões
pessoais sobre algum tema relevante em meu meio, escrevo
um artigo. Procuro escrever com um mínimo de elegância,
para seduzir meu leitor pela palavra; com um máximo de
clareza, para que ele entenda bem minhas idéias; com todo
o rigor possível, para que lhe seja difícil discordar
de mim. Permito-me usar informações sobre todos os campos
de conhecimento, ainda que resolva citar a mitologia grega
para falar sobre as eleições políticas do momento. Posso
tomar certas liberdades de expressão, dependendo do tema
em questão: se quero falar sobre uma abstração, como a
"bondade" ou a "linguagem", uso mais ilustrações e analogias;
se pretendo defender certa atitude, como a revogação de
uma lei ou a assinatura de um acordo, uso mais dados concretos
e estatísticos para apoiar meu posicionamento —
se necessário, organizo um raciocínio severo em torno
deles.
Muitas outras poderiam
ser as variações. O importante é que, a partir de uma consciência
dos próprios objetivos, o redator tem condições de escolher
melhor os recursos a utilizar para tornar seu texto de fato
eficiente. |