Um texto é um conjunto
de idéias organizado e coerente. Existem dois tipos básicos
de núcleo textual: o tema e a figuração. Esses núcleos, em suas
diferenças, serão estudados mais a fundo em outro momento. O
importante agora é procurarmos compreender que os dois tipos
mencionados necessitam igualmente de uma estrutura ordenada
que permita a compreensão do leitor (sem o que a comunicação
não se estabelece).
A melhor forma de testarmos
nossa capacidade de conhecer o funcionamento de uma estrutura
textual e reproduzir sua organização é fazendo uma paráfrase.
Paráfrase é um texto feito a partir das idéias de outro texto,
mantendo sua essência, mas utilizando outras palavras. Para
fazer uma paráfrase, é preciso entender todas as idéias que
o autor do texto original quis transmitir, em todos os seus
detalhes. Veja um exemplo de paráfrase de apenas uma sentença.
"Todas as pessoas,
em todos os países, adoram ter momentos de lazer".
Paráfrase: Todo
o mundo gosta demais de desfrutar dos períodos de descanso.
Exercícios
1.
Experimente fazer uma paráfrase do seguinte trecho abaixo. Perceba
que há dentro do texto diversas naturezas de relações entre
idéias: ora contradição (antítese ou oposição), ora comparação,
ora explicação. Além disso, perceba que o primeiro período do
parágrafo resume sua idéia central: por isso, é chamado de seu
tópico frasal. Faça sua paráfrase respeitando a posição
e o sentido do tópico frasal e atentando para o caráter exato
das relações entre as idéias.
O teatro, longe de ser
apenas veículo da peça, instrumento a serviço do autor e da
literatura, é uma arte de próprio direito, em função da qual
é escrita a peça. Esta, em vez de servir-se do teatro, é ao
contrário material dele. O teatro a incorpora como um de seus
elementos. O teatro, portanto, não é literatura, nem veículo
dela. É uma arte diversa da literatura. O texto, a peça, literatura
enquanto meramente declamados, tornam-se teatro no momento em
que são representados, no momento, portanto, em que os
declamadores, através da metamorfose, se transformam em personagens.
A base do teatro é a fusão do ator com a personagem, a identificação
de um eu com outro eu — fato que marca a passagem de uma
arte puramente temporal e auditiva (a literatura) ao domínio
de uma arte espaço-temporal ou audiovisual. O status
da palavra modifica-se radicalmente. Na literatura são as palavras
que medeiam o mundo imaginário. No teatro são os atores/personagens
(seres imaginários) que medeiam a palavra. Na literatura a palavra
é a fonte do homem (das personagens). No teatro o homem é a
fonte da palavra.
ROSENFELD, Anatol. Prismas
do teatro. Ed. Perspectiva, pp. 22-3.
2.
O texto seguinte é figurativo. Para fazer sua paráfrase,
procure perceber a ordem dos eventos, além de relações como
a comparação e a oposição revelada entre certas idéias.
Ergui-me, tateei a roupa
no encosto da cadeira, tirei dos bolsos cigarros e fósforo,
debrucei-me à janela, fiquei longamente a olhar o pátio escuro,
fumando. Como iria comportar-me? Se me dessem tempo suficiente
para refletir, ser-me-ia possível juntar idéias, dominar emoções,
ter alguma lógica nos atos e nas palavras, exibir a aparência
de um sujeito mais ou menos civilizado. Mas na situação nova
que me impunham, fervilhavam as surpresas, e diante delas ia
decerto confundir-me, disparatar, meter os pés pelas mãos. Ali
em baixo, a alguns metros de distância, dois vultos, ladeando
um portão, semelhavam pessoas embuçadas, gigantes embuçados.
Que seriam? Pilares? Deviam ser pilares. Afastei-me, passeei
cauteloso, abafando os passos, temendo esbarrar nas cadeiras.
RAMOS, Graciliano. Memórias
do cárcere. José Olympio, 1.º vol., p.52.
3.
Com o texto abaixo, extraído do Dom Quixote, de Cervantes,
você fará três exercícios:
a) uma paráfrase;
b) uma redução de até vinte
linhas, com palavras e frases suas;
c) uma redução a mais de
cinco e menos de dez linhas, também com palavras e frases suas,
que mantenha o essencial da estrutura original.
Venho [aqui] só a defender-me,
e mostrar quão fora de razão andam todos os que me culpam do
que penam, e da morte de Crisóstomo. Por isso, rogo a quantos
aqui sois me atendais, que não será necessário muito tempo,
nem muitas palavras, para persuadir de tão claras verdades os
assisados. Fez-me o céu formosa, segundo vós outros encareceis;
e tanto, que não está em vossa mão o resistirdes-me e, pelo
amor que me mostrais, dizeis, e até supondes, que esteja eu
obrigada a corresponder-vos. Com o natural entendimento que
Deus me deu, conheço que toda formosura é amável; mas não entendo
que em razão de ser amada seja obrigada a amar, podendo até
dar-se que seja feio o namorado da formosura. Ora, sendo o feio
aborrecível, fica muito impróprio o dizer-se: "Quero-te por
formosa; e tu, ainda que eu o não seja, deves também amar-me".
Mas, ainda supondo que as formosuras sejam de parte iguais,
nem por isso hão de correr iguais os desejos, porque nem todas
as formosuras cativam; algumas alegram a vista, sem renderem
as vontades. Se todas as belezas enamorassem e rendessem, seria
um andarem as vontades confusas e desencaminhadas, sem saberem
em que haviam de parar; porque, sendo infinitos os objetos formosos,
infinitos haviam de ser os desejos; e, segundo eu tenho ouvido
dizer, o verdadeiro amor não se divide, e deve ser voluntário,
e não forçado. Sendo isto assim, como julgo que é, por que exigis
que renda a minha vontade por força, obrigada só por dizerdes
que me quereis bem? Dizei-me: se, assim como o céu me fez formosa,
me fizera feia, seria justo queixar-me eu de vós por me não
amardes? E demais, deveis considerar que eu não escolhi a formosura
que tenho; que, tal qual é, o céu ma deu gratuitamente, sem
eu a pedir nem a escolher; assim como a víbora não há de ser
culpada da peçonha que tem, posto matar com ela, em razão de
lhe ter sido dada pela natureza, tampouco mereço eu ser repreendida
por ser formosa, que a formosura na mulher honesta é como o
fogo apartado, ou como a espada aguda, que nem ele queima, nem
ela corta a quem se lhes não aproxima. A honra e a virtude são
adornos da alma, sem os quais o corpo não deve parecer formoso,
ainda que o seja. Pois se a honestidade é uma das virtudes que
o corpo e a alma mais adornam e aformosentam, por que há de
perdê-la a que é amada por formosa, para corresponder à intenção
de quem, só por seu gosto, com todas as suas forças e indústrias,
aspira a que a perca? Eu nasci livre; e para poder viver livre
escolhi as soledades dos campos; as árvores desta montanha são
a minha companhia; as claras águas destes arroios, meus espelhos;
com as árvores e as águas comunico meus pensamentos e formosura.
4.
Faça os mesmos exercícios com o texto abaixo, extraído
do livro O Que é Espiritismo, de Allan Kardec.
E quanto o senhor pagou
para apreciar tudo isso?
Coisa nenhuma, naturalmente.
Eis aqui, então, charlatães
de uma espécie singular e que reabilitarão esse nome. Até o
presente não se tinham vistos ainda charlatães desinteressados.
Se um certo pândego de mau gosto divertiu-se certa feita e ocasionalmente,
com essas manifestações, seguir-se-á daí, forçosamente, que
todas as outras pessoas sejam embusteiras? Ademais, a troco
de quê tornar-se-iam cúmplices de uma mistificação? Para divertir
a sociedade, dirá o senhor. Admito que uma vez se preste alguém
a um brinquedo. Mas se uma brincadeira se prolonga por meses
e anos é que, penso eu, o mistificador está sendo mistificado.
É concebível que, pelo simples prazer de fazer os outros acreditarem
numa coisa que sabe ser falsa, se imobilize uma pessoa horas
inteiras, sobre uma mesa? O prazer não pagaria o trabalho.
Antes de concluir pela
fraude, é preciso, de início, perguntar-se a si mesmo que interesse
pode haver na trapaça. Ora, o senhor concordará que existem
posições sociais que excluem toda suposição de embuste; pessoas
cujo caráter, por si só, constitui garantia de probidade.
Coisa diversa seria se
se tratasse de uma especulação, pois a ganância é má conselheira.
Admitindo-se, porém, que neste último caso uma manobra fraudulenta
seja positivamente constatada, o fato nada prova contra a realidade
do princípio. Basta levar-se em conta que tudo é passível de
abuso. Porque se vendem vinhos falsificados, não se pode concluir
que não exista vinho verdadeiro. O Espiritismo não é mais responsável
pelos atos daqueles que abusam de seu nome, do que a ciência
médica o é pelos atos dos charlatães que impingem drogas, ou
a religião pelos atos dos sacerdotes que abusam de seu ministério.
O Espiritismo, por ser
coisa recente, e por sua própria natureza, presta-se aos abusos.
Ele, porém, forneceu os meios de os reconhecer, deixando claramente
definido o seu verdadeiro caráter, negando toda solidariedade
aos que o exploram ou o desviam do seu objetivo exclusivamente
moral, para o transformar em ofício, em instrumento de adivinhação
ou de fúteis investigadores.
Uma vez que o próprio Espiritismo
traça os limites em que se fecha, define o que prescreve e o
que não prescreve, o que pode fazer e o que não pode fazer,
o que está ou não em suas atribuições, o que aceita e o que
repudia, errados estão os que não se dão ao trabalho de estudá-lo
e o julgam pelas aparências, pois, topando saltimbancos disfarçados
em espíritas, para atraírem os transeuntes, dirão gravemente:
"Eis o que é o Espiritismo". (p. 14 e 15)
5.
Com o texto abaixo, extraído do livro O Caráter Nacional
Brasileiro, de Dante Moreira Leite, você fará dois exercícios:
a) uma paráfrase;
b) um aumento do texto,
inserindo alguns dados ou idéias novas, que se relacionem
com os elementos originais do texto.
Embora em certos
momentos possam reunir-se, racismo e nacionalismo são conceitos
independentes, pois o primeiro apresenta — mesmo quando
deformado ideologicamente — um conteúdo biológico, enquanto
o segundo tem conteúdo histórico, cultural e político. De um
ponto de vista rigorosamente nacional, isto é, que procure englobar
toda a população, o conceito de raça é destrutivo, dadas as
evidentes diferenças raciais existentes em todos os países.
De forma que o racismo, antes de ser uma ideologia para justificar
a conquista de outros povos, foi muitas vezes uma forma de justificar
diferenças entre classes sociais.