VOLTAR
   Desde 1989
   Gerador de Aulas
   Educativos
   CD do Aluno
   Seu Site
   Projetos     Interdisciplinares
   Gerador de Provas
   Arquivos de Suporte
   Cursos Técnicos
   Sistema Adm. Escolar
   Cursos de
   Capacitação 2005
   Fale Conosco
   Serviços
   Dia das Crianças
   Meio Ambiente
   Especial primavera
   Especial Dia dos Pais
   Especial dia das Mães
   Educação Infantil
   Especial de Natal
   Web Mail
   WebQuests
   Projeto Folclore
   Projeto Robótica
   Projeto Eleição
   Projeto OnLine 2005
   Novo Professor
   Downloads
   Web Cards
   Biblioteca OnLine
   Conteúdo OnLine
   Notícias
   Educação
   Meio Ambiente
   Tecnologia
   Política
   O Mundo
   Informática
   Esportes
   Lazer
   Música
   Personalidades

 

Textos comentados

 

Narração

Com o discurso narrativo temos inúmeras possibilidades de representação da realidade. É possível documentar, criar, fantasiar, analisar, impressionar. Alguns elementos, contudo, são de grande relevância na análise e na preparação da narrativa: o foco narrativo é o ponto de vista pelo qual o enredo está sendo observado. O enredo é formado por uma seqüência de ações (não necessariamente sucessivas no tempo) em que as personagens
se envolvem e pelas quais são afetadas. A determinação de um espaço e sua descrição também podem ser fundamentais para a construção da história. Para uma leitura completa do texto narrativo, é preciso ainda verificar a postura ideológica do narrador (em especial no caso de documentários, notícias, etc.), ou a intenção subjacente no conteúdo simbólico ou alegórico da manifestação criadora de um artista. Veja abaixo um exemplo comentado de texto narrativo.


Desta água não beberás

Carlos Drummond de Andrade

 

— Por que Demétrio não se casa? Era indagação geral. Demétrio namorava, noivava,
não casava. Sete dias antes do casamento, olha aí Demétrio fugindo. As versões eram
múltiplas. A noiva é que o despedira. Tiveram uma briga feia. Gênios incompatíveis.
Mal secreto. Intrigas.

Demétrio continuava a namorar, noivar e não casar. Não lhe faltavam noivas, pois
era agradável, tinha status. Quanto mais se desmanchavam os projetos de casamento,
mais apareciam mulheres dispostas ao desafio, exclamando:

— A mim ele não deixa na porta do Mosteiro de São Bento.

Deixava. E quanto mais deixava, mais seu prestígio crescia. Concluiu-se que era sua
maneira de afirmar-se.

Então Livaniuska decidiu enfrentá-lo. Noivou com ele e, uma semana antes do casamento,
deu-lhe um fora solene. Demétrio quis reagir, explicou à repórter social que ele é que
tomara a iniciativa, mas a mentira foi patente. Livaniuska foi contratada como atriz por
uma emissora de TV e ficou célebre.

Daí por diante ela repetiu a carreira de Demétrio, noivando e desmanchando com inúmeros cavalheiros. No fim de cinco anos, Livaniuska e Demétrio casaram-se para sempre,
como era fácil de prever mas ninguém previu.

 

Em Contos plausíveis, p.65, José Olympio Editora, Rio, 1985

 

Alguns dados sobre essa narrativa:

Enredo. Seu aspecto mais importante. É longo, comprimido de forma concisa no conto.
Demétrio realizava continuamente uma seqüência definida de ações: namorar, noivar,
não casar, namorar de novo, etc. Essa atitude (metódica, segundo a tonalidade da
narrativa), desencadeou uma reação precisa de Livaniuska, que, agindo com Demétrio
como ele agira com muitas outras, ainda tomou para si aquele mesmo comportamento
regular. O desfecho do enredo é o desfecho do impasse, do fator "não casamento": as
duas personagens, identificadas pelo modo de conduta que de certa forma as consagrou,
casam-se "para sempre".

Foco narrativo. O narrador conta a história em terceira pessoa. É observador — não é
onisciente porque não revela pormenores íntimos de personagens ou situações nem
demonstra comparecer a ações simultâneas. Seu tom é o do jornalista que poderia
narrar da mesma forma a partir de uma simples pesquisa dos fatos. Conta uma história
que, na verdade, é conhecida por todos: como uma fofoca que, fartamente divulgada
em outro tempo, cristalizou-se em fábula.

Personagens. As principais são descritas particularmente pelas situações que suas
atitudes desencadeiam: Demétrio é o rapaz-que-abandona-as-noivas, Livaniuska é a
moça-que-passou-a-perna-no-Demétrio — rótulos pelos quais são famosos. Como o
foco narrativo destaca o caráter de fofoca do enredo (temática implícita — conteúdo
profundo), as personagens não são mais que isso: a carcaça aparente, apropriada ao
colunismo social. Ao leitor não se permitem conhecer seus pensamentos, desejos,
frustrações. Assim como o leitor da coluna social não os conhece das "personalidades"
abordadas por tais colunas.

Espaço. O enredo não exigiu a definição de espaços específicos que situassem mais
adequadamente cada ação. Só se menciona, de passagem, o Mosteiro de São Bento,
lugar em que se realizam casamentos — dessa forma o autor efetua uma referência
simbólica ao mais recorrente tema superficial da narrativa.

Tempo. O dado temporal mais significativo é o que subjaz à seqüência de ações
repetidas das duas personagens: trata-se de um período de valor intencionalmente
indefinido pelo autor, para acentuar a natureza metódica, quase automática (de
duração "eterna", ou seja, indefinida), da atitude delas. Quando um período de ação
é definido, já na última frase ("no fim de cinco anos"), também a atitude de Demétrio
e Livaniuska se mostra definida. Outro destaque: Livaniuska abandona Demétrio uma
semana antes do casamento, o mesmo tempo relatado no único caso em que se
particulariza quanto tempo antes do casamento Demétrio foge. Essa coincidência reforça
o movimento de reação de Livaniuska.

Dissertação

Dissertar é expor idéias com clareza e objetividade, justificando-as de modo consistente.
Uma dissertação pode ter apenas algumas linhas ou centenas de páginas: depende da
minúcia da reflexão e da amplitude da temática. Importante nesse tipo de discurso é
expressar nitidamente a intenção do texto, de preferência no seu início. Essa será a
tese
a ser defendida por argumentos que se organizarão numa linha de raciocínio.

Veja abaixo alguns exemplos de dissertação, com comentários em cada trecho.

Palmares, a modernidade possível

A Lei 3.353, de 13 de maio de 1888, que terminou com a escravidão, em seu 1.º e único artigo, declarou "extincta a escravidão" no Brasil. Ao declarar findo um regime que durara três séculos e meio, sem estabelecer nenhuma medida — precisamente nenhuma — que buscasse materializar economicamente a liberdade dos antigos escravos, o Estado brasileiro deu um golpe mortal nos ideais da República de Palmares, que havia sido destruída cerca de dois séculos antes da promulgação daquela lei.1 O apartheid, quase racial, brasileiro tem sua matriz aí.2

Em razão disso desencadearam-se os dois Brasis: o Brasil habitado em sua maioria pelos descendentes dos escravos é um país pobre e atrasado, onde o historiador social não necessita fazer um mergulho no tempo para identificar os dados para os seus estudos, pois tem a seu dispor, intocadas in natura, misérias que são seculares. Quanto ao Brasil moderno, foi o país que mais cresceu neste século e é uma das maiores economias do mundo.3 Os afro-brasileiros (pretos e pardos, segundo a Fundação IBGE) estão praticamente ausentes deste Brasil, que poderia ser confundido com a Bélgica ou Holanda.4 O fosso social brasileiro, quando interpretado à luz do que foi o desfecho do escravismo aqui, tem a sua perpetuidade esclarecida.5

Isso não quer dizer que não faça parte desse Brasil anacrônico uma parcela da população que é branca e indígena.6 O que precisa ser considerado é que nesse Brasil não-moderno a esmagadora maioria é formada por afro-brasileiros. Uma amostra do que estamos dizendo pode ser evidenciada pelas tabulações da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 1990 da Fundação IBGE.7

Segundo a ONU, o Brasil é o país onde ocorre a maior concentração de renda do mundo.8 Aqui, os 10% mais ricos absorvem 51,3% do PIB. Nos países do Primeiro Mundo, esse nível não ultrapassa os 5%. Vejamos, na tabela ao lado, como está a renda do brasileiro, após efetuarmos os cortes raciais.9[A tabela mostra, com dados precisos, que negros e pardos superam os brancos entre os trabalhadores que ganham menos de um salário mínimo, mas ficam bem atrás entre os que ganham mais de cinco.]

Esses dados não deixam margem de dúvida: a concentração de renda no Brasil — a pior do planeta — atinge mais duramente os afro-brasileiros.10

A educação, em qualquer lugar, é um fator importante para alavancar o desenvolvimento e dar velocidade à mobilidade social.11 As taxas de analfabetismo das pessoas com idade a partir de 10 anos, em 1990, evidenciam bem as diferenças raciais no Brasil. Para cada grupo de 100 brasileiros brancos, a partir daquela marca etária, temos 11 analfabetos. Em relação aos pretos e pardos, temos, em cada grupo de 100, 29 e 27 pessoas, respectivamente. Portanto, os afro-brasileiros têm mais que o dobro de chances de ser analfabetos. Analisando quem concluiu pelo menos o 1.º grau, verificamos que os brasileiros brancos, em 1990, totalizavam 32 com aquele desempenho escolar em cada grupo de 100. Portanto, cerca de um terço da população branca consegue estudar oito anos ou mais. Os pretos e pardos representam, respectivamente, apenas 14 e 16 pessoas em cada grupo de 100. 12

A modernidade, para a sua consecução, exige a racionalidade.13 Nada é mais irracional do que o tipo de República que perpetramos aqui.14 Comparando aquela época aos dias de hoje, podemos afirmar que os quilombos constituíam um espaço privilegiado naqueles tempos de deslavada mediocridade. Havia produtividade e fartura, as pessoas se integravam num projeto que era coletivo. Não havia exclusão.15 Após a experiência de Palmares, seria razoável que já estivéssemos todos num patamar elevado de civilização. A tragédia social verificada nas grandes cidades e no campo evidencia que com a destruição de Palmares se perdeu um paradigma que nos permitiria um caminho bem diferente do que acabamos trilhando.16 A modernidade possível no Brasil não deve pactuar com a barbárie, que vem a reboque da exclusão social. O quase apartheid racial brasileiro impede a modernização global do País. A inconclusão do nosso projeto de nação esbarra no que Palmares, há mais de 300 anos, vivenciou às escâncaras: cidadania17.

Introdução

1. Contextualização (referências históricas).

2. Tese (existe um apartheid social no Brasil).

Desenvolvimento

3. Análise e oposição (identificam-se dois Brasis muito diferentes).

4. (Caracterização do apartheid apontado em 2).

5. Retomada do conteúdo do 1.º parágrafo.

6. Ressalva: alusão a argumento contrário que poderia surgir.

7. Resposta à ressalva.

8. Referência a pesquisa de procedência confiável.

9. Desenvolvimento de dados estatísticos da pesquisa referida.

10. A conclusão a partir dos dados comprova a resposta à ressalva (ver 7) e a tese do apartheid social (ver 2).

11. Referência a um recurso de análise social.

12. Emprego desse recurso como argumento em defesa da tese (ver 2).

Silogismo

13. Premissa 1(para ser moderno, é preciso ser racional).

14. Premissa 2(nossa República é irracional).

[Conclusão implícita (nossa República não é moderna)].

15. Comparação para justificar premissa 2 (ver 14).

16. Complemento da comparação, com juízo a seu respeito.

Conclusão

17. (Para o Brasil ser moderno, é preciso que acabe a barbárie do apartheid social.)


Hélio Santos

O Estado de São Paulo, 25 de novembro de 1995

O texto seguinte foi adaptado de Jornal da Soma, panfleto anarquista: perceba que se trata, agora, de uma dissertação mais caracterizada por uma função argumentativa.

Voto de valor

Nas próximas eleições, anule o seu voto.

O voto nulo é desprezado pelas leis que controlam o processo eleitoral. Os políticos profissionais se preveniram contra este tipo de manifestação, através do artigo 77 da Constituição promulgada em 88. Este artigo considera que se um candidato conseguir maioria na contagem dos votos válidos estará eleito. Assim, mesmo com uma porcentagem maior que 50%, o voto nulo não vai ter nenhum poder de decisão nas eleições para os cargos majoritários (presidente, governadores, senadores e prefeitos).

Para as eleições proporcionais (vereadores, deputados estaduais e federais), a situação muda um pouco. Como a Constituição só se refere à eleição dos cargos majoritários, uma maioria de votos nulos pode anular a eleição proporcional. Se isto acontecer, seriam convocadas novas eleições com os mesmos candidatos. Se o voto nulo ganhar novamente, nem os mais famosos juristas sabem como o Tribunal Superior Eleitoral iria resolver o impasse.

Pela lógica eleitoral maquiavélica, o voto nulo não vale nada. Podemos ter um presidente eleito com apenas 1% dos votos em todo o País ou sermos obrigados novamente a escolher entre candidatos a deputado que já foram totalmente rejeitados. A Lei está do lado dos políticos profissionais e quer garantir, de qualquer jeito, a manutenção deste regime caduco e corrupto.

É por isso que somos um dos poucos países do mundo que ainda mantém o voto obrigatório. Além do Brasil, somente países como o Chile e a Rússia, que também saíram de ditaduras para um regime "democrático", conservam este mecanismo eleitoral autoritário. Pode parecer contradição, mas é coerência: antes, ninguém podia votar; agora, todos são obrigados.

 

Hostplan Informática