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Narração
Com o discurso narrativo
temos inúmeras possibilidades de representação da realidade.
É possível documentar, criar, fantasiar, analisar, impressionar.
Alguns elementos, contudo, são de grande relevância na análise
e na preparação da narrativa: o foco narrativo é o ponto
de vista pelo qual o enredo está sendo observado. O enredo
é formado por uma seqüência de ações (não necessariamente sucessivas
no tempo) em que as personagens
se envolvem e pelas quais são afetadas. A determinação de
um espaço e sua descrição também podem ser fundamentais
para a construção da história. Para uma leitura completa do
texto narrativo, é preciso ainda verificar a postura ideológica
do narrador (em especial no caso de documentários, notícias,
etc.), ou a intenção subjacente no conteúdo simbólico
ou alegórico da manifestação criadora de um artista.
Veja abaixo um exemplo comentado de texto narrativo.
Desta água não beberás
Carlos Drummond de Andrade
— Por que Demétrio
não se casa? Era indagação geral. Demétrio namorava, noivava,
não casava. Sete dias antes do casamento, olha aí Demétrio
fugindo. As versões eram
múltiplas. A noiva é que o despedira. Tiveram uma briga feia.
Gênios incompatíveis.
Mal secreto. Intrigas.
Demétrio continuava
a namorar, noivar e não casar. Não lhe faltavam noivas, pois
era agradável, tinha status. Quanto mais se desmanchavam os
projetos de casamento,
mais apareciam mulheres dispostas ao desafio, exclamando:
— A mim ele
não deixa na porta do Mosteiro de São Bento.
Deixava. E quanto
mais deixava, mais seu prestígio crescia. Concluiu-se que
era sua
maneira de afirmar-se.
Então Livaniuska
decidiu enfrentá-lo. Noivou com ele e, uma semana antes do
casamento,
deu-lhe um fora solene. Demétrio quis reagir, explicou à repórter
social que ele é que
tomara a iniciativa, mas a mentira foi patente. Livaniuska
foi contratada como atriz por
uma emissora de TV e ficou célebre.
Daí por diante ela
repetiu a carreira de Demétrio, noivando e desmanchando com
inúmeros cavalheiros. No fim de cinco anos, Livaniuska e Demétrio
casaram-se para sempre,
como era fácil de prever mas ninguém previu.
Em Contos plausíveis, p.65,
José Olympio Editora, Rio, 1985
Alguns dados sobre essa
narrativa:
Enredo.
Seu aspecto mais importante. É longo, comprimido de forma concisa
no conto.
Demétrio realizava continuamente uma seqüência definida de ações:
namorar, noivar,
não casar, namorar de novo, etc. Essa atitude (metódica, segundo
a tonalidade da
narrativa), desencadeou uma reação precisa de Livaniuska,
que, agindo com Demétrio
como ele agira com muitas outras, ainda tomou para si aquele
mesmo comportamento
regular. O desfecho do enredo é o desfecho do impasse, do fator
"não casamento": as
duas personagens, identificadas pelo modo de conduta que de
certa forma as consagrou,
casam-se "para sempre".
Foco
narrativo. O narrador conta a história em terceira pessoa.
É observador — não é
onisciente porque não revela pormenores íntimos de personagens
ou situações nem
demonstra comparecer a ações simultâneas. Seu tom é o do jornalista
que poderia
narrar da mesma forma a partir de uma simples pesquisa dos fatos.
Conta uma história
que, na verdade, é conhecida por todos: como uma fofoca que,
fartamente divulgada
em outro tempo, cristalizou-se em fábula.
Personagens.
As principais são descritas particularmente pelas situações
que suas
atitudes desencadeiam: Demétrio é o rapaz-que-abandona-as-noivas,
Livaniuska é a
moça-que-passou-a-perna-no-Demétrio — rótulos pelos quais
são famosos. Como o
foco narrativo destaca o caráter de fofoca do enredo
(temática implícita — conteúdo
profundo), as personagens não são mais que isso: a carcaça aparente,
apropriada ao
colunismo social. Ao leitor não se permitem conhecer seus pensamentos,
desejos,
frustrações. Assim como o leitor da coluna social não os conhece
das "personalidades"
abordadas por tais colunas.
Espaço.
O enredo não exigiu a definição de espaços específicos que situassem
mais
adequadamente cada ação. Só se menciona, de passagem, o Mosteiro
de São Bento,
lugar em que se realizam casamentos — dessa forma o autor
efetua uma referência
simbólica ao mais recorrente tema superficial da narrativa.
Tempo.
O dado temporal mais significativo é o que subjaz à seqüência
de ações
repetidas das duas personagens: trata-se de um período de valor
intencionalmente
indefinido pelo autor, para acentuar a natureza metódica, quase
automática (de
duração "eterna", ou seja, indefinida), da atitude delas. Quando
um período de ação
é definido, já na última frase ("no fim de cinco anos"), também
a atitude de Demétrio
e Livaniuska se mostra definida. Outro destaque: Livaniuska
abandona Demétrio uma
semana antes do casamento, o mesmo tempo relatado no único caso
em que se
particulariza quanto tempo antes do casamento Demétrio foge.
Essa coincidência reforça
o movimento de reação de Livaniuska.
Dissertação
Dissertar é expor idéias
com clareza e objetividade, justificando-as de modo consistente.
Uma dissertação pode ter apenas algumas linhas ou centenas de
páginas: depende da
minúcia da reflexão e da amplitude da temática. Importante nesse
tipo de discurso é
expressar nitidamente a intenção do texto, de preferência
no seu início. Essa será a
tese a ser defendida por argumentos que se organizarão
numa linha de raciocínio.
Veja abaixo alguns exemplos
de dissertação, com comentários em cada trecho.
Palmares, a modernidade possível
| A Lei 3.353,
de 13 de maio de 1888, que terminou com a escravidão, em
seu 1.º e único artigo, declarou "extincta a escravidão"
no Brasil. Ao declarar findo um regime que durara três séculos
e meio, sem estabelecer nenhuma medida — precisamente
nenhuma — que buscasse materializar economicamente
a liberdade dos antigos escravos, o Estado brasileiro deu
um golpe mortal nos ideais da República de Palmares, que
havia sido destruída cerca de dois séculos antes da promulgação
daquela lei.1 O apartheid, quase racial, brasileiro
tem sua matriz aí.2
Em razão disso desencadearam-se os dois Brasis: o Brasil
habitado em sua maioria pelos descendentes dos escravos
é um país pobre e atrasado, onde o historiador social
não necessita fazer um mergulho no tempo para identificar
os dados para os seus estudos, pois tem a seu dispor,
intocadas in natura, misérias que são seculares.
Quanto ao Brasil moderno, foi o país que mais cresceu
neste século e é uma das maiores economias do mundo.3
Os afro-brasileiros (pretos e pardos, segundo a Fundação
IBGE) estão praticamente ausentes deste Brasil, que poderia
ser confundido com a Bélgica ou Holanda.4 O
fosso social brasileiro, quando interpretado à luz do
que foi o desfecho do escravismo aqui, tem a sua perpetuidade
esclarecida.5
Isso não quer dizer que não faça parte desse Brasil anacrônico
uma parcela da população que é branca e indígena.6
O que precisa ser considerado é que nesse Brasil não-moderno
a esmagadora maioria é formada por afro-brasileiros. Uma
amostra do que estamos dizendo pode ser evidenciada pelas
tabulações da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios
(Pnad) de 1990 da Fundação IBGE.7
Segundo a ONU, o Brasil é o país onde ocorre a maior
concentração de renda do mundo.8 Aqui, os 10%
mais ricos absorvem 51,3% do PIB. Nos países do Primeiro
Mundo, esse nível não ultrapassa os 5%. Vejamos, na tabela
ao lado, como está a renda do brasileiro, após efetuarmos
os cortes raciais.9[A tabela mostra, com dados
precisos, que negros e pardos superam os brancos entre
os trabalhadores que ganham menos de um salário mínimo,
mas ficam bem atrás entre os que ganham mais de cinco.]
Esses dados não deixam margem de dúvida: a concentração
de renda no Brasil — a pior do planeta — atinge
mais duramente os afro-brasileiros.10
A educação, em qualquer lugar, é um fator importante
para alavancar o desenvolvimento e dar velocidade à mobilidade
social.11 As taxas de analfabetismo das pessoas
com idade a partir de 10 anos, em 1990, evidenciam bem
as diferenças raciais no Brasil. Para cada grupo de 100
brasileiros brancos, a partir daquela marca etária, temos
11 analfabetos. Em relação aos pretos e pardos, temos,
em cada grupo de 100, 29 e 27 pessoas, respectivamente.
Portanto, os afro-brasileiros têm mais que o dobro de
chances de ser analfabetos. Analisando quem concluiu pelo
menos o 1.º grau, verificamos que os brasileiros brancos,
em 1990, totalizavam 32 com aquele desempenho escolar
em cada grupo de 100. Portanto, cerca de um terço da população
branca consegue estudar oito anos ou mais. Os pretos e
pardos representam, respectivamente, apenas 14 e 16 pessoas
em cada grupo de 100. 12
A modernidade, para a sua consecução, exige a racionalidade.13
Nada é mais irracional do que o tipo de República que
perpetramos aqui.14 Comparando aquela época
aos dias de hoje, podemos afirmar que os quilombos constituíam
um espaço privilegiado naqueles tempos de deslavada mediocridade.
Havia produtividade e fartura, as pessoas se integravam
num projeto que era coletivo. Não havia exclusão.15
Após a experiência de Palmares, seria razoável que já
estivéssemos todos num patamar elevado de civilização.
A tragédia social verificada nas grandes cidades e no
campo evidencia que com a destruição de Palmares se perdeu
um paradigma que nos permitiria um caminho bem diferente
do que acabamos trilhando.16 A modernidade
possível no Brasil não deve pactuar com a barbárie, que
vem a reboque da exclusão social. O quase apartheid racial
brasileiro impede a modernização global do País. A inconclusão
do nosso projeto de nação esbarra no que Palmares, há
mais de 300 anos, vivenciou às escâncaras: cidadania17.
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Introdução
1. Contextualização (referências históricas).
2. Tese (existe um apartheid social no Brasil).
Desenvolvimento
3. Análise e oposição (identificam-se dois Brasis muito
diferentes).
4. (Caracterização do apartheid apontado em 2).
5. Retomada do conteúdo do 1.º parágrafo.
6. Ressalva: alusão a argumento contrário que poderia
surgir.
7. Resposta à ressalva.
8. Referência a pesquisa de procedência confiável.
9. Desenvolvimento de dados estatísticos da pesquisa
referida.
10. A conclusão a partir dos dados comprova a resposta
à ressalva (ver 7) e a tese do apartheid social (ver 2).
11. Referência a um recurso de análise social.
12. Emprego desse recurso como argumento em defesa da
tese (ver 2).
Silogismo
13. Premissa 1(para ser moderno, é preciso ser racional).
14. Premissa 2(nossa República é irracional).
[Conclusão implícita (nossa República não é moderna)].
15. Comparação para justificar premissa 2 (ver 14).
16. Complemento da comparação, com juízo a seu respeito.
Conclusão
17. (Para o Brasil ser moderno, é preciso que acabe a
barbárie do apartheid social.)
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Hélio Santos
O Estado de São Paulo,
25 de novembro de 1995
O texto seguinte foi adaptado de
Jornal da Soma, panfleto anarquista: perceba que
se trata, agora, de uma dissertação mais caracterizada
por uma função argumentativa.
Voto de
valor
Nas próximas eleições, anule o seu voto.
O voto nulo é desprezado pelas leis que controlam o processo
eleitoral. Os políticos profissionais se preveniram contra
este tipo de manifestação, através do artigo 77 da Constituição
promulgada em 88. Este artigo considera que se um candidato
conseguir maioria na contagem dos votos válidos
estará eleito. Assim, mesmo com uma porcentagem maior
que 50%, o voto nulo não vai ter nenhum poder de decisão
nas eleições para os cargos majoritários (presidente,
governadores, senadores e prefeitos).
Para as eleições proporcionais (vereadores, deputados
estaduais e federais), a situação muda um pouco. Como
a Constituição só se refere à eleição dos cargos majoritários,
uma maioria de votos nulos pode anular a eleição proporcional.
Se isto acontecer, seriam convocadas novas eleições com
os mesmos candidatos. Se o voto nulo ganhar novamente,
nem os mais famosos juristas sabem como o Tribunal Superior
Eleitoral iria resolver o impasse.
Pela lógica eleitoral maquiavélica, o voto nulo não vale
nada. Podemos ter um presidente eleito com apenas 1% dos
votos em todo o País ou sermos obrigados novamente a escolher
entre candidatos a deputado que já foram totalmente rejeitados.
A Lei está do lado dos políticos profissionais e quer
garantir, de qualquer jeito, a manutenção deste regime
caduco e corrupto.
É por isso que somos um dos poucos países do mundo que
ainda mantém o voto obrigatório. Além do Brasil, somente
países como o Chile e a Rússia, que também saíram de ditaduras
para um regime "democrático", conservam este mecanismo
eleitoral autoritário. Pode parecer contradição, mas é
coerência: antes, ninguém podia votar; agora, todos
são obrigados.
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